Páginas

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Querido(?) Diário

Querido Diário
Nunca soube como começar falando como você, um pedaço de papel barato onde guardava todos os meus podres. Não era um amigo, nem um amor, apenas um depósito de hipocrisia, planos e desabafos todos. Não era "Querido". Já pensei em começar com "Senhor Diário" mas seria muito formal para continuar com "hoje eu vi um gatinho na escola".
Enfim, te larguei aos meus 14 anos pois comecei a achar muito tolo conversar com um caderno mas, sinceramente, sinto sua falta. Sinto falta de ter que esperar o ônibus por meia hora e ter você como companhia, de olhar para os estranhos e inventar nomes, personalidades e histórias de vida para eles. Sinto falta desses mesmos estranhos me olharem como se eu fosse alguma aberração escrevendo sem parar como se os dedos fossem começar a sangrar e as páginas a pegar fogo. Hoje ninguém mais me percebe. Sou apenas mais uma jovem com um fone de ouvido tocando o bom e velho Rock 'n' Roll e lendo um livro da moda.
Sei que fazem anos e se você fosse alguém real, estaria magoado comigo por eu ter lhe abandonado, mas preciso falar isso mas é muito estúpido para ser dito em voz alta. Se é tão estúpido, nada mais conveniente que ser contado de forma estúpida para um caderno estúpido cuja ultima escrita foi 16 de setembro de 4 anos atras.
Juro que nunca direi isso em voz alta mas, alguma vez na vida terei que dizer. Então lá vai.
Estou apaixonada.
Sim, é isso mesmo. Sim, é a mesma pessoa que escreveu em 16 de setembro de 4 anos atras como o namoradinho que tinha era entediante e como relacionamentos eram inúteis.
O que eu posso fazer? Não podemos controlar essas tolices do coração.
Ótimo, agora sou um clichê de filme.
É tão fácil falar com você. Não tenho medo de ser julgada, mal entendida, ignorada. É tão natural falar com você, tão tão..
Sabe Diário, você me lembra ele, com essa cara vermelha como quando eu comento sem querer como ele é lindo. E esse arame laranja como os cachos ruivos daquele moço. E essas folhas brancas como a pele dele.
Ah se você tivesse os olhos azuis que ele tem...
Queria poder me apaixonar por você, seria tão mais fácil.
Querido Diário, achei uma razão pra te chamar de querido.

P.S.: Acho que nunca escrevi algo tão idiota. 
Ainda bem que não disse isso alto.
Daqui 2 minutos essa folha estará amassada no lixo.
Desculpe-me Querido, foi bom te reencontrar.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Salsichas

Minha intenção era estar bêbada demais pra não me lembrar, mas me lembro dele a cada cliente novo que me aparece. Nem me lembro de como fui parar naquele bar, na verdade me lembro sim, mas vou deixar vocês imaginando uma briga, uma decepção ou só vontade mesmo, a imaginação é de vocês. No canto do bar tinha um sujeito mal encarado, aparentava ter uns 35, 36 anos, barba mal feita, cabelo bagunçado, camiseta branca, copo numa mão e cigarro na outra. Agora me veio uma música do Chico Buarque a minha cabeça que acho que ilustra bem a situação “ele me comia, com aqueles olhos de comer fotografia”. Olhei-lhe nos olhos, ele se aproximou e como se fosse dono do mundo só me perguntou:
- Quanto tá o programa?
Com raiva respondi:
- Não sou puta. - Já veio passando a mão na minha bunda e disse-me que pagava bem. O resto da conversa não importa, o que importa é que acabei no quarto de um motel qualquer, desses de beira de estrada que qualquer puta barata dá. Olhou-me nos olhos e me puxou pela cintura, soltou-me e perguntou o que uma menina tão nova andava fazendo por um bar sujo daqueles. Não respondi. Segurou-me pelo cabelo e puxou meu corpo para junto ao dele, me senti como uma presa prestes a ser devorada por um feroz leão. Beijou-me o pescoço, desceu pela minha barriga e me lambeu as coxas, sua cabeça chegou entre minhas pernas e minha reputação chegou ao chão. Meu corpo se contorcia de prazer e na minha cabeça eu dizia não. Veio-me a mente minhas tias dizendo “tão bonita, com um futuro tão promissor”, velhas putas, só sabem criticar a vida alheia e colocar pressão sobre os mais novos, aposto que a noite enfiam os dedos entre as pernas e sentem saudades de quando seus maridos ainda se interessavam por aquela carne morta.
Prazer por prazer que eu insistia em teimar que não, me incendiava mais ainda quando pensava na grana que ia tirar daquele homem. Prazer que se acabou logo. O desgraçado terminou o trabalho e desmontou de mim, sem nem se importar comigo, afinal, quem espera as coxas de um frango assado tremer para parar de comer? Quem espera o grito rouco de um hambúrguer para acabar com a fome?  Enfim, o bastardo egoísta pegou um cigarro e deitou do meu lado, eu ainda estendida de pernas abertas esperando. Me ofereceu um cigarro, eu que nunca tinha fumado, não pensei duas vezes. Minha vó sempre dizia que cada vez que alguém fumasse um cigarro, pagava um boquete pro capiroto, já que agora eu era puta, não é isso que as putas fazem? Tossi até quase vomitar os peitos. Ele disse que tinha o xarope pra minha tosse. Falando em boquete...
Terminada a minha parte, o cliente vestiu suas roupas, jogou o dinheiro na própria sujeira em cima da cama e foi embora. Saí direto pra barraquinha do Seu João, o velho das salsichas, melhor amigo das putas famintas. Ser puta da uma fome lazarenta, acabei de tirar uma salsicha da boca e já estava louca pra colocar outra.


por Amanda Martinatti e Wueverton Caetano

domingo, 15 de dezembro de 2013

My Immortal

Noite passada eu tive um sonho. Bom, eu acho que era um sonho. 
Eu estava em um lugar totalmente escuro, ou totalmente claro. Não tenho certeza. Só sei que
era vazio. Totalmente aconchegante. Eu tinha a sensação de estar dentro de mim mesma.
Eu comecei a cair e parecia que ia continuar assim para sempre, então eu estava olhando 
minha família à mesa. Eles não me viam.
Todas as minhas fotos haviam sumido, meu quarto não era meu. Eu não existia.
Na escola minhas amigas não guardavam meu lugar ou falavam sobre mim. Meu nome não 
estava na chamada.
Eu não existia mais, eu finalmente tinha conseguido sumir, e foi um alívio tão grande...
Agora eu poderia apenas acabar com tudo sem nenhum receio, ninguém ia sentir minha falta. 
Não que eu achasse que antes iriam.
Agora eu poderia encher esse vazio de sangue e dar o tão esperado último suspiro.
Então eu estava no lugar vazio de novo, caindo de novo, morrendo de novo.
Eu estava no meu quarto.
Desci as escadas e estava de volta ao pesadelo.
Todas as minhas fotos penduradas, minhas coisas espalhadas pela casa, meus pais me 
vendo, minhas amigas me mandando mensagens da festa inútil que elas foram.
Não sei se foi um sonho ou o universo fez a sacanagem de me deixar sentir o gostinho da 
felicidade para depois tirar de mim.
Só sei que eu não podia fazer mais nada, não tinha escolha, tinha que continuar vivendo. 
Não foi dessa vez.

"I'm so tired of being here[...]
[...] These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase"

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Nowhere Man - The Beatles

Pela primeira vez, desde os meus dez anos, me arrisco a rimar.
Percebe-se a pouca prática pelo poema que escrevo logo a baixo.
Me sinto um tanto quanto boba chamando um texto meu de "poema", como se eu fosse uma "poeta".
Agora sobre a banda escolhida.
Demorei muito tempo pra escrever algo inspirado em Beatles.
Talvez por ser minha banda favorita, e por ser Beatles, claro, nunca achei que nada que fiz inspirado neles, estava a nível de publicação, mas ando precisando colocar um monstros para fora, e nada melhor do que Nowhere Man pra expressar como ando me sentindo.
Sem mais enrolações e desculpas, o poema.


Nowhere "girl"


Ela só tinha o tempo em comum
           com essa sociedade vazia.
Ela não se encaixava em lugar algum,
           vivia em plena fantasia;

Ela fazia planos com ninguém,
           de uma vida imaginária.
Ela decorava casas inexistentes
           e cantava músicas inventadas.

Olhava estrelas de pensamentos
           deitada em gramados de sonhos.
Dançava baladas secretas
           e bebia drinks de fôlego;

E no final do dia, chorava lágrimas invisíveis;

Chorava pela felicidade que não tinha,
           pelas pessoas que não conhecia;
Pelo lugar sem forma que vivia
           e pelas coisas que nunca vira;

Mal sabia ela
           que não estava perdendo nada,
que sua realidade utópica
           era muito melhor que essa vida parada/pacata;

Essa triste realidade,
           com pessoas de verdade;
Onde as pessoas esperam dormir para poder sonhar,
           com o mundo que ela teimava em querer deixar.


"He's a real nowhere man,
sitting in his nowhere land,
making all his nowhere plans,
for nobody."

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Maybe



Do outro lado da praça tem uma garotinha brincando no parque, ela acabou de sair da escola, está com sua mochila rosa nas costas, de vestidinho vermelho, sua mãe está sentada no banco lendo um livro, fugindo de sua própria realidade, do fardo de ter se tornado mãe antes dos vinte, enquanto sua linda criança suja as meias de areia.
Essa garotinha provavelmente diz que vai ser veterinária quando crescer, todas dizem.
Ela sonha em encontrar um amor pra vida toda, em casar, ter filhos, ser feliz, viajar pelo mundo, ter uma casa com um grande jardim onde ela possa cuidar de suas flores e brigar com o cachorro porque ele está pisando em suas camélias.
Se ela soubesse o que a espera...
Se ela soubesse o que a espera ela não estaria se divertindo enquanto gira o balanço, ela estaria preocupada, deprimida. Mas mesmo se alguém fosse lá e falasse: “o que você está fazendo? Por que está sorrindo? Sabe o que vai acontecer com você? Você vai se decepcionar. Você não vai ser veterinária, você será uma garota carente que se apaixonará pelo primeiro trouxa que te sorrir. E ele vai te despedaçar. Você não vai passar no vestibular porque passou mais tempo atrás dele do que estudando. Você não vai ter uma casa com quintal grande e flores. Desista! Você não pode com a vida”. Sabe o que ela faria? Mostraria a língua e correria para mãe dela. E esta diria que é tudo mentira, e sentiria uma facada na alma, pois foi exatamente o que aconteceu com ela.
Talvez eu seja uma tola, mas talvez essa garota não siga os passos da mãe. Talvez ela realmente se torne uma veterinária, se case com alguém legal, quem sabe ela até tenha um jardim grande!
Talvez ela realmente se torne a mulher que ela imagina que ela será. Talvez, se ela olhar pra traz e der de cara com ela mesma do outro lado do jardim, e tenha um estranho falando que ela não vai conseguir ser alguém na vida, ela chegue nesse alguém e fale “toma essa seu babaca, eu me tornei tudo que eu queria! Você está totalmente errado! Não é porque você não conseguiu que eu não conseguiria também! ”
Talvez ela não tenha vergonha de se apresentar a ela mesma. Talvez ela diga para ela mesma “Eu nunca desisti dos nossos sonhos, você está orgulhosa de mim?” sabendo que a resposta seria um abraço e uma risada boba.
Ou talvez, em um fim de tarde, ela sente do outro lado da praça vendo aquele dia passar de novo e de novo em sua frente, até que a mãezinha chame a criança pra ir embora porque está começando a chover. Então, talvez, só talvez, ela vá, sob a chuva, sente no balanço e gire, só para se lembrar de como era sonhar e acreditar que a vida era bela.
Mas só talvez.





"Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around."