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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dedicatórias

Não conheço melhor presente que livros. Presentear alguém com um livro é presentear alguém com um universo particular para o qual se viaja a cada toque nas páginas. Mas presentear alguém com um livro com uma dedicatória, ah sim! Isso sim é um excelente presente.
Escrever uma dedicatória em um livro o torna único. Escrever uma dedicatória em um livro é dar a essa história uma história.

Segurar um livro novo nas mãos, recém tirado do plástico, páginas coladas de um livro intocado, nenhum arranhão, nenhuma dobra, nenhuma marca de dedo suado nas páginas.
Mas ah, os livros velhos! Deixarei eles pra depois, falemos das coisas novas primeiro.
Ler a primeira página de uma nova história trás a lembrança de tantas histórias já lidas. Você é tão ingênuo na primeira página de um livro. Você não sabe nada daquela vida. Se é de um autor novo você começa pensando "vamos ver do esse cara está falando". Se você já conhece pensa "esse filho da mãe vai me fazer chorar de novo". De qualquer forma, não deixa de ser um misto de excitação e adrenalina. A decisão de começar um livro novo, ou uma saga nova, te muda desde a escolha do livro e isso é algo que todos os livros tem em comum.
Não sei vocês mas eu me envolvo de mais nas histórias. Sou do tipo mais clichê de amante de livros que você vai conhecer.
Dos livros velhos então. Ah, como eu sou apaixonada por livros velhos! Quando falo "livros velhos" não falo necessariamente sobre um livro escrito em 1920. Não que eu não seja apaixonada por um livro de capa dura desbotada com alguns reparos, páginas amareladas do tempo, uma poeirinha por cima e até algumas manchas na contra capa. Ah, quanto amor! - Como já disse, sou um clichê. - Mas não é esse tipo de livro velho que quero que você se apaixone hoje. Se apaixone por eles também, mas não coloquem a culpa em mim.
Talvez seria melhor falar "livros usados" mas eu gosto de chamá-los de velhos. Diferente das interpretações mais comuns de velho, tenho uma visão muito mais de classe e sofisticação do que pejorativo como sempre se ouve. Pense em frases como "não sou velho, sou experiente". Se trocarmos "velho" por "usado" nessa frase, continua um tanto quanto pejorativo, não é mesmo? Por isso continuarei com o bom e velho "velho". Além disso, vejo "experiência" (da frase) como uma coleção de histórias. Mas novamente filtro os livros que quero que percebas. Não diria que um livro que contém diversos contos se classifica nessa "experiência" que quero dizer, então deixe-os de lado, deixe para amá-los daqui a pouco.
Livros velhos. Não acho que apenas os livros mudam as pessoas, acredito que as pessoas mudem os livros também, afinal, cada um lê com toda uma bagagem que pode transformar a mesma história em tantas versões com tantos significados. Por isso acredito que um livro lido por duas pessoas tem muito mais histórias que um livro lido por uma só. Por isso amo emprestar meus livros! Agora, pense comigo. Além da história impressa contada pelo autor, o livro ganha uma história de cada pessoa que o lê, mas não apenas isso! Se você é como eu, tenho certeza que seus livros tem muitas outras histórias. Carrego na bolsa o livro que estou lendo para praticamente todos os lugares que acho que posso ter uma oportunidade de dar uma espiada nele. Consegue imaginar por quantos lugares esse livro já passou? Quantas pessoas já perguntaram sobre ele? Quantos segredos e fofocas ele já ouviu? Com certeza além de uma história, esse livro tem história.
Acho que agora tenho o suficiente para falar do que eu mais gosto em livros. Dedicatórias!

Uma dedicatória indica, primeiramente, que aquele objeto é um presente. Como eu já disse, o melhor presente que se pode dar. Uma dedicatória é mais uma história que você adiciona ao vetor de histórias que esse livro terá. É dar a essas histórias uma primeira história, aquela que explica o porque tantas histórias serão formadas e lançadas ao universo. Uma dedicatória é um punhado de letras que contam o quanto você gosta da pessoa que será presenteada, mesmo que contenha apenas seu nome e uma data. E acredito que para dar um livro você goste bastante dela, pelo menos tenho certeza que ela gostará bastante de você por presenteá-la com tamanha consideração! A menos que ela não goste de livros, mas ainda assim sempre tem a chance dela se apaixonar por algo novo, como livros.
Sabe aquele sentimento de abrir um livro novo? Alguém já o abriu antes, e fez isso especialmente para mostrar o quão importante você é pra ela. O suficiente para escolher um títulos dentre tantos outros para te fazer feliz. O suficiente para escrever em um livro.
Escrever em um livro é um ato extremamente ousado para um amante de livros. Se um amante de livros dá um livro com uma dedicatória para um outro amante de livros, isso é praticamente uma prova de amor!
Ganhar um livro com dedicatória é magico. Já forcei amigos a escreverem dedicatórias em livros que eles me deram "em branco". Sei, tira toda a tal magia, mas lá está o nome deles e algumas palavras que provavelmente me emocionaram. Para todo o sempre! Ou pelo menos enquanto exista o livro, o que eu espero que seja sempre.
Prateleiras do sebo
Mas a magia não está apenas em ganhar um livro com dedicatória. A magia está intrínseca na dedicatória. Pegar um livro qualquer com uma dedicatória muda completamente a minha visão sobre ele. Pensando agora na melhor loja de presentes para pessoas como eu, pense em um sebo. Eu encontrei esse sebo uma vez escondido em uma rua pouco movimentada. Apenas uma salinha que se você passa muito rápido nem percebe que existe algo ali, mas como eu senti o cheiro dos livros, obviamente não consegui evitar de entrar.


Discos não estão à venda, assim como algumas
 edições de livros clássicos
O sebo tem apenas duas prateleiras que vão da porta aos fundos da salinha e uma mesa onde o dono fica sentado lendo seus livros e fazendo reparos em outros. É um senhor apaixonado por livros e pelos seus discos. Me perco em uma sala de nem 10 metros quadrados toda vez que vou lá.
Estou falando sobre esse sebo porque é o melhor lugar para encontrar minhas tão amadas dedicatórias misteriosas. Encontrei diversos livros com dedicatórias datadas de antes de 1960 e sempre tentei imaginar quantas histórias teriam esses livros pra contar. Se a pessoa que ganhou essa dedicatória foi a primeira a ler esse livro, ou a segunda, ou se esse livro já tinha sido um presente para a pessoa que resolveu presentear outra, por onde o livro passou, em que cidade foi comprado a primeira vez. Quantos donos esse livro teve. Por que ele foi parar parar em um sebo e não está na estante de livros da casa de alguém. Tantas histórias carrega um livro e tanto pode-se imaginar por uma simples dedicatória como essa:
Encontrada em um livro de R$8,00 do sebo citado

Então só tenho alguns pontos a destacar: Se eu fosse um livro, gostaria muito de ser chamado de "velho" e mais ainda de ser dedicado à alguém. Portanto, deem livros de presente! Escrevam neles e deem mais uma história pra eles. A SUA história. Digam o que precisa ser dito na dedicatória de um livro pois, como diz um provérbio Latim, "Verba volant, scripta manent" que significa "As palavras (faladas) voam, as escritas permanecem ".


P.S.: Obrigada a todos que escreverem em livros e deixaram neles um mistério tão lindo quanto esse e obrigada principalmente a quem já me deu um livro com dedicatória. Agora você sabem porque gostei tanto! E a quem não escreveu também. Poxa, são livros!
Hoje conheci um site lindo que me deu mais vontade ainda de escrever sobre isso, o site é o Eu te dedico.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Para amar uma ruiva - por Camila Fernandes

Para amar uma ruiva é preciso haver coração de sobejo.

Não que as ruivas não se amem facilmente. Na verdade, é comum que sejam amadas por muitos. Basta às vezes um só olhar para que isso aconteça.

É que, uma vez acesa a chama, nunca será pequena; será sempre fogo denso, impiedoso, inquisidor.

Portanto, para amar uma ruiva é preciso saber queimar. É preciso brincar sem medo com fogo. E é preciso também respeitá-lo – o fogo que nasce no crânio da ruiva feito cabelo, que lhe afogueia as faces. Um fogo que, quando afrontado, em lugar de aquecer, incinera.

Judas tinha cabelos vermelhos, diz-se; como Esaú também os tinha, e antes dele, Caim. Waterhouse pintou Lamia, lenda de sedução, com cabelos vermelhos; as madeixas com que a Vênus de Boticcelli cobre languidamente o sexo não são de outra cor que não a do fogo. Cor que é certamente um sinal de perigo. Sinal claro de divindade.

Para amar uma ruiva é preciso fitá-la intensamente nos olhos – sejam azuis do mar, verdes dos fiordes ou, mais raramente, castanhos como a terra que os consumirá – e provar-lhe a ausência do medo. Conquistá-la no olhar primeiramente, e só depois no toque – pois tu certamente quererás tocar a pele muito, muito clara, de uma claridade quase ofuscante, mesmo sob o sol maldoso dos trópicos. Quererás isso como teus pulmões querem o ar. Eu sei porque já quis.

Mas, antes disso, terás de provocar seu sorriso, e embora sorrisos sejam fáceis na boca-morango da ruiva, não penses que serão todos teus. Alguns serão da tua tolice, da tua presunção, e estes ela te dará sem cerimônia, sem promessa, sem futuro. Serão paina ao vento, macios e inúteis. O sorriso que queres tomar da ruiva é o do fascínio. Pois ela, que fascina, não quer outra coisa que não ser fascinada. Ela é chama, e para incendiar deve ser alimentada com palavras hábeis, coração honesto, virilidade sem disfarces. É preciso atrevimento, mas nunca certeza; ela é amada por muitos, e pode escolher a quem amar.

Então, quando obtiveres esse sorriso, estarás pronto para amar uma ruiva.

Para isso, começa sempre no beijo, mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja, porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa, o ato que lhe faça justiça. Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso, onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível; às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha, que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo – é algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher de cabelos carmesim, cobre ou dourado-fogo. Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre as coxas. Sem pressa, porém; pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno: por toda uma noite, aquecendo a casa, crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.

Para amar uma ruiva é necessário amar-lhe cada sarda, da testa ao ventre, saboreando-as como raspas de canela que temperam a pele-leite.

É preciso consumir-se nos cabelos-labareda.

É preciso afogar-se no sexo, rubro jardim sem espinhos, e santificar seu aspecto perpetuamente virginal, a despeito do pecado, que ela te ensinará a adorar, se já não souberes.

Para amar uma ruiva – e disso sei por já ter amado muitas – é preciso arder com graça.

É preciso amar um pouco o próprio inferno.

Por isso, ruiva, se é que deves mesmo me ferir, sê breve: tenho pressa do paraíso.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Meninos e meninas

Sobre o garoto de cabelo cacheado e barba uma semana sim, uma semana não, o que posso dizer com certeza é que ele é um garoto complicado. Passou grande parte da vida procurando por alguém. Aquele alguém. No caminho encontrou vários "alguéns" mas que logo viravam ninguém.
Nos primeiros anos de sua adolescência foi apresentado ao tal relacionamento amoroso ao qual todos os seus amigos, que eram amigas na maior parte, falavam o tempo todo e sonhavam alto sobre. Elas falavam pra ele sobre caras perfeitos e romantismo. Ele não via graça nenhuma nisso, mas dizia estar procurando a pessoa certa para não parecer estranho. Achou vários amores que sempre acabavam em "você é muito frio pra mim".
Cansou de romances perfeitos. Era fácil de mais pra ele. Precisava de algo mais desafiador. Resolveu que gostava de garotos. A família foi contra, chamavam de fase, mas ele não ligava. Tinha drama suficiente para saciar sua anormalidade, por um tempo. E como ele amava um drama. Suas amigas começaram a tratá-lo diferente, trocar de roupa em sua frente e perguntar sobre o tamanho de seus peitos. Percebeu que gostava mesmo era de mulher. Mas conheceu um garoto que fez seu mundo parar. Voltou a gostar de garotos. Se apaixonou, teve mais um romance perfeito e cansou. Conheceu uma garota que fez seu mundo sair de órbita. Se apaixonou, outro romance perfeito. Cansou. Decidiu que não ia se decidir entre um e outro.
Nesse meio tempo entre procurar aquele alguém pra não parecer estranho e encontrar tantos "alguéns", chegou a conclusão que não era bom sozinho, que relacionamentos tinham sua graça. Começou a depender fisicamente de ter alguém. Conheceu uma garota que o prendia e fazia com ele os mesmos jogos que ele fazia com todos. Enfim um relacionamento que não era perfeito. Brigavam o tempo todo mas não se desgrudavam, tinham ciúmes de todos que trocavam olhares e não cansavam de se provocar. Começou a se sentir normal de mais. Ela também perdeu a graça.
Provou todos os tipos de relacionamentos e no final descobriu que "aquele alguém" era ele mesmo, era ninguém e era todo mundo. Ele era feliz com sua indecisão. Não via graça em saber o que quer da vida.
Quando o conheci, mantinha a barba uma semana sim, uma semana não, pois nunca conseguiu decidir como preferia, e posso dizer que o melhor dele era essa compliques. O seu melhor estilo era  a barba uma semana sim, uma semana não.
O seu humor era de mesma indecisão.
As únicas certezas que eu tinha sobre ele é que era meu amigo e que seu cabelo era cacheado. E até seu cabeço cacheado era complicado.


"Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas.
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre.
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente."