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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Guerra interior

A Melancolia que me invade sem motivos e sem avisos já não me perturba.
Sua visita frequente tornou-me quase imune a seus efeitos, mas certo dia, ela me invade e, insatisfeita com a minha Felicidade, chama a Tristeza para vasculhar os cantos mais obscuros do meu coração.
Todas as tranqueiras que guardei, não só dos outros, mas de mim mesma, a Tristeza pega em mãos como se fosse um troféu, levanta alto e grita: "Foge de mim agora! Corra para sua Felicidade! Tente ignorar-me, veremos se és forte o bastante para não me ouvir!"
Eu resisto, com ajuda da Felicidade, que vai e arranca todas as Tranqueiras que eu já havia esquecido das mãos da Tristeza e diz para ela: "Isto estava guardado para nunca mais ser encontrado. Pagarás caro." E leva as Tranqueiras de volta para a escuridão do meu ser. Mas, algumas dessas Tranqueiras, travessas que são, fogem do bando e se perdem no caminho.
Pobres Tranqueiras que não sabem o que são. Não sabem o que carregam em suas costas, o que mostram em suas testas. Pobres Tranqueiras cegas e ingenuas, que só querem minha atenção, só querem ser lembradas.
Mas a Maldade, esperta e astuta, sabe da ingenuidade das Tranqueiras, e disso aproveita-se para atrair as pobres Tranqueiras desgarradas e perdidas para juntar-se a ela, com promessas de muita atenção.
Então, a Maldade conta para a Tristeza sobre seu plano, e a Tristeza descansa, enquanto a Felicidade fica livre de mais. Sem avisar, a Tristeza coloca em minha mente algumas das Tranqueiras esquecidas e sussurra: "Lembra-te dessa? Ela está sofrendo sem a sua atenção, prenda-a em seus pensamentos, para que ela sinta-se acolhida novamente."
Os Pensamentos lutam contra as amarras que a Dó coloca ligando-os as Tranqueiras.
Vendo que os Pensamentos, mesmo incomodados com as Tranqueiras, ignoram-nas, a Tristeza convence as Tranqueiras a chamar minha atenção, então, mais uma vez, a Tristeza dirige-se a mim. "Não vês como choram as Tranqueiras?" E estas solução seu choro desesperador cada vez mais alto, deixando os Pensamentos surdos e rendidos.
Minha alma chora, molhando as vestes da Felicidade.
Então a Maldade convoca seu batalhão de Tranqueiras que não sabem o que fazem. A Maldade diz a estas: "É hora de vocês brilharem. Vocês que ficaram tanto tempo na escuridão do esquecimento, hoje, reinaram neste Ser. Toda a atenção será de vocês, basta gritar bem alto. "
Com isso, a Maldade, como um líder de guerra, invade os Pensamentos com todo seu exercito de Tranqueiras gritando e chorando, implorando minha atenção.
A Tristeza diz a Felicidade: "Quem triunfa enfim? Este ser, está tomado pela tristeza resultante da maldade. E você? Onde estás?"
A Melancolia, arrependida por ter chamado a Tristeza para dentro deste Ser, que trouxe escondida em suas sombras a Maldade, abre as comportas da emoção, liberando as Lágrimas, que inundam a mente, assustam todas as Tranqueiras, que começam uma nova jornada rumo ao esquecimento, libertam todos os Pensamentos das correntes, e expulsam a Tristeza, que refugia-se nos meus olhos.
A Melancolia diz a Felicidade: "Nem sempre represento a Tristeza. Até mesmo eu, prego a justiça."
Dadas as mãos, a Felicidade fala para a Tristeza escondida nos meus olhos: "Eu avisei que pagaria. Esta é a hora." Então, a Melancolia invoca as Lágrimas que lavaram os Pensamentos, e manda lavar os olhos.
E uma maré de Lágrimas invade minha face. Ao fundo posso ouvir a Felicidade dizer: "Tristeza, que um dia atormentara esse Ser, morra afogada pelas Lágrimas que você mesma provocou."
E quanto a Maldade? Os Pensamentos fizeram-na prisioneira, e esta só será usada novamente com total vigilância dos Pensamentos.
Agora, as últimas gotas secam nos cantos dos meus olhos, deixando vestígios do que fora um dia a união entre a Tristeza e a Maldade lutando para destruir o próprio Ser que as abriga.

Autora : Amanda Martinatti dos Santos