Hoje eu dei um soco na parede durante o banho. A minha vontade era gritar mas eu surrei a parede. Eu soquei a parede porque estava com raiva de mim. Sempre tive medo de socar a parede com força então as primeiras vezes que fiz isso foi covardemente fraco. Hoje eu precisava fazer isso, eu precisava tirar essa energia sufocante de mim. Eu precisava da dor porque eu merecia ela. Hoje eu dei um soco na parede, e outro e outro. Ninguém ouviu. Outro soco, outro e outro. Juntas estavam vermelhas, se eu machucasse mais, o meu amor iria perceber e se preocupar. Eu chorava e deixava a água do chuveiro o mais quente possível pra sentir minha pele queimar mas a temperatura não era alta o suficiente e a única coisa que senti foi calor.
Mais choro, hora de dar socos com a outra mão. Namorado entra no banheiro e vem me perguntar se estou bem, disfarço bem lavando o rosto. Tive o cuidado de parar os socos até de qualquer machucado que fosse chamar a atenção. Os socos não estão aliviando, não doi o suficiente, mas qualquer outra coisa ele vai notar. Lembro que minha amiga me contou que arranhava a nuca e pé do cabelo. É bom, acalma, a dor física consegue oprimir a angústia por alguns segundos e a ardência que as unhas deixaram me lembra que eu mereço isso. Eu estou tentando não chamar a atenção pros meus problemas, ninguém tem nada a ver com eles, sei que se preocupam mas não é responsabilidade deles lidar comigo, acho que já tenho sido egoísta o suficiente e tenho que guardar essa angústia pra mim. É o melhor que posso fazer por eles.
Quando saí do banheiro corri pro quarto. 1 calmante sublingual não seria suficiente. 3 devem resolver. Ele entra no quarto e pergunta se eu tô bem, eu desabo a chorar enquanto o remédio derrete na minha boca. Eu preciso aguentar mais cinco minutos.
O que eu ouço dele, aquela pessoa maravilhosa que por algum motivo que eu não faço ideia me ama está tentando me confortar do jeito que sabe, fazendo gracinhas, de dando carinho. Ele me faz tão bem, mas nesse momento eu só queria que ele não me visse assim pra não sofrer por minha causa. "Você é uma pessoa egoísta" "Você não faz sua parte em nada, tudo que vc conquistou veio dos outros" "Você é um peso" "Você não vai conseguir, é uma preguiçosa egoísta" ""você não merece isso, porque impedir os outros de conhecerem alguém melhor?" Em meio às brincadeiras dele e seu sorriso lindo com olhar claramente preocupado mas tentando me passar segurança e que tudo vai ficar bem, a única coisa que ouço é minha própria voz sugando qualquer brilho do meu olho. Eu devia ir pra casa mas isso só faria todo mundo ficar preocupado e eu não quero ser um estorvo maior ainda. O remédio finamente está no meu sangue. Eu me sinto melhor, eu consigo rir com sinceridade e realmente aproveitar a presença dos meus amigos. Meu namorado me chama pra dividir um lanche. Eu disse que não queria comer e ele acha que é pelo dinheiro, eu aceito pra ele não ficar mal. O lanche é delicioso e eu não devia estar comendo, eu não mereço esse momento, eu não mereço essa sensação boa. O filme foi ótimo e agora em casa tudo que o remédio controlou sai para brincar com minha cabeça. Tomo um remédio pra dormir, ligo pro namorado pra dar boa noite, ele está preocupado comigo, eu me sinto mal por isso, me perdoa amor por ser esse ser instável, eu não queria te preocupar, eu não queria que soubesse como eu estou, não queria te causar angústia, mas você me conhece bem demais, eu não consigo esconder nada de você, principalmente porque eu não quero esconder nada. Eu sou 100% sua e isso quer dizer que 95% do que vc tem como namorada é uma merda. Você com certeza merece mais e conseguiria melhor facilmente mas vc me escolheu por algum motivo obscuro pra mim. Essa é a sua escolha e eu fico feliz por isso, porque você é uma das melhores coisas que me aconteceram na vida, espero conseguir ser melhor pra você. Me perdoa pelo meu egoísmo, falta de atenção ou qualquer coisa assim. Infelizmente não é só com você. Eu tenho sido uma péssima filha, ingrata e egoísta. Péssima irmã, relapsa, distante, eu devia ter te ligado tantas vezes já Júlia, me perdoa por favor. Péssima amiga nem se fala... se eu começar a listar o porquê disso eu nem vou dormir hoje.
O remédio que tomei para dormir está batendo, preciso parar por aqui.
Eu só queira pedir desculpa a todo mundo.
Eu só queira parar de fazer mal pra todo mundo.
Where is my mind?
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Um dos sentimentos mais difíceis que já lidei foi este de ter que me perdoar por algo que não é minha culpa. Me perdoar por sentir que sou culpada, que deveria ter feito diferente para não acontecer mas principalmente me perdoar por quanto isso me afetou.
A alguns minutos atrás eu percebi que o que tenho sentido é falta de mim.
Eu odeio parar e analisar meus sentimentos e a causa deles porque isso normalmente machuca. Saber de onde tudo vem e ter que encará-los e saber por onde começar, isso tudo dói. Enquanto você não sabe porque se sente de um jeito é "mais fácil" pois você só tem que descobrir o que é. Sentir e analisar. A partir do momento que você sabe o que é e o porque você tem que começar o processo todo de lidar com isso pra seguir com a vida. O problema aqui é que eu sinto demais.
Uma vez eu estava conversando com uma amiga sobre algum drama passado e como eu me senti e ela disse "nossa, você sente muitas coisas e você sabe o que você esta sentindo" e isso não saiu da minha cabeça. Se eu estivesse escrevendo um livro com alguns momentos específicos da minha vida eu poderia passar páginas descrevendo como eu me senti e porque de cada pedaço de sentimento de apenas alguns segundos de uma "cena".
O problema de saber a razão desses sentimentos é que você tem as respostas e agora você sabe onde e com o que tem que mexer pra lidar com isso. Talvez isso nem seja realmente um problema. É a solução na verdade, você sabe o que precisa resolver e sabe que vai doer e que tem que passar por isso.
A alguns minutos atrás eu percebi que eu estou em relacionamento abusivo comigo mesma. Eu me calei pra mim mesma, não me deixei ouvir por meses, não me deixei expressar, não me deixei me amar. Esqueci que preciso me amar. Tenho depositado essa carência no amor de outra pessoa porque eu sei que me ama e simplesmente esqueci que quem tem que me amar mais no mundo sou eu! E não estou falando de auto estima. Não sei como nem porque mas nesse quesito ando muito bem, obrigada. Inclusive, acabei de ler um rascunho de uma carta direcionada pra uma eu do futuro que ainda não chegou mas que me fez perceber que aquela fase foi superada.
Eu só preciso voltar a me amar, me descobrir novamente, descobrir porque eu me amo, o que eu tenho de bom, de interessante e etc. Preciso de um encontro comigo, me conhecer do zero, me apaixonar novamente por mim. Mas principalmente eu preciso me perdoar. Me perdoar pelas coisas que não são minha culpa.
Eu só preciso voltar a me amar, me descobrir novamente, descobrir porque eu me amo, o que eu tenho de bom, de interessante e etc. Preciso de um encontro comigo, me conhecer do zero, me apaixonar novamente por mim. Mas principalmente eu preciso me perdoar. Me perdoar pelas coisas que não são minha culpa.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Porque garotas gordas NUNCA deveriam mostrar o corpo.
(Traduzido do blog Coil & Curve http://www.coilandcurve.com/)
Como uma garota gorda eu entendo as regras e
limites que eu tenho que seguir a fim de me encaixar na sociedade. O de sempre;
nunca usar listras horizontais, nunca usar o cabelo curto, e nunca ter
esperanças de encontrar o cara certo.
O cara certo que por acaso tem
tanquinho, coque masculino, barba perfeita, tatuagens de pirata, um emprego bem
remunerado e a mais sensual aura de “Christian Grey” sobre ele mesmo (que
poderia muito bem ser outra postagem: “Onde está Wally: Edição Procurando o
homem perfeito”).
Mas de volta ao ponto.
Eu deveria ficar mansa e não fazer muito barulho
porque ser gorda já é uma perturbação.
Se você tem estado atento as recentes discussões e
cada vez mais aceitação de mulheres grandes na moda você deve ter notado a
tendência em expansão de mulheres grandes exibindo e ostentando elas mesmas em
trajes reveladores. Das redes sociais e todas as populares hashtags#ImNoAngel
(#EuNãoSouNenhumAnjo), parecem estar em uma fase de permitir mulheres grandes
de sentirem-se como se elas fossem aceitas na sociedade de hoje, especialmente
quando mostrando seus corpos.
Recentemente eu ouvi uma conversa entre dois
colegas de trabalho que estavam escandalizados por terem ido à praia e deitado
perto de um grupo de garotas gordas que se encarregaram de usar biquínis. Como se atrevem?
Colega 1: “Foi tão estranho ficar deitado perto
delas.”
Colega 2: “Claro! Gordas nunca deviam mostrar o
corpo.”
Essa conversa me fez pensar que talvez, só talvez gordas não aprenderam que elas
nunca deveriam mostrar o corpo. Talvez elas não tenham sido esclarecidas do
fato de que não é aceitável.
Mas eu estou aqui pra te dizer que Garotas Gordas
NUNCA deveriam mostrar o corpo...aqui esta o porquê:
Uma Garota Gorda nunca deveria mostrar o corpo
porque ela pode exalar uma confiança que iria intimidar aqueles que a cercam.
Uma Garota Gorda nunca deveria mostrar o corpo
porque ela pode, sem saber, transformar-se em um modelo para garotas mais
jovens. Ela pode ensinar a elas que não importa o que as pessoas digam, a verdadeira beleza vem de dentro. Ela
pode ensinar elas a amar o que elas veem no espelho.
Uma Garota Gorda nunca
deveria mostrar o corpo porque ela pode acabar atraindo os olhos daquele garoto
gostoso que estava surfando com seus amigos gostosos. Ei você, eu vi você
“secando” ela. Ele pode achar sua confiança sexy e pode talvez, sabe, achar
ela bonita. Nós não precisamos de garotas gordas pensando que elas são
bonitas.
Uma Garota Gorda nunca deveria mostrar o
corpo porque ela pode tornar dolorosamente obvio que ela é diferente. O mundo
não precisa de pessoas únicas e diferentes.
Uma Garota Gorda nunca deveria mostrar o corpo
porque ela pode interpretar isso como ser corajosa. Não precisamos de Garotas Gordas correndo por
aí se sentindo corajosas. Não precisamos de Garotas Gordas pensando que elas
têm que ser corajosas para serem elas mesmas. Não precisamos de Garotas Gordas
pensando que elas têm que ser corajosas para mostrar seus corpos. Não deveria
haver coragem quando os outros estão certos em ridicularizar e humilhar você.
Uma Garota Gorda nunca deveria mostrar seu corpo
porque ela pode deixar aqueles a sua volta inconfortáveis com o poder que ela
tem de não dar a mínima. Ela não dá
a mínima porque ninguém deveria dar a
mínima. Não é segredo que ela é gorda. Se o mundo inteiro pode ver que ela
é gorda, por que então ela tem que esconder isso? De quem ela está escondendo
isso? Por que ela está escondendo isso? Por que estamos a fazendo esconder
isso?
Garotas Gordas
nunca deveriam mostrar seu corpo...no escuro.
Garotas Gordas
nunca deveriam mostrar seu corpo...de cabeça baixa.
Garotas Gordas
nunca deveriam mostrar seu corpo...envergonhadas.
Garotas Gordas
nunca deveriam mostrar seu corpo sem um sorriso no rosto.
Texto original (em inglês): http://www.coilandcurve.com/blog/2015/4/25/why-fat-girls-should-never-show-their-skin
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Dedicatórias
Não conheço melhor presente que livros. Presentear alguém com um livro é presentear alguém com um universo particular para o qual se viaja a cada toque nas páginas. Mas presentear alguém com um livro com uma dedicatória, ah sim! Isso sim é um excelente presente.
Escrever uma dedicatória em um livro o torna único. Escrever uma dedicatória em um livro é dar a essa história uma história.
Segurar um livro novo nas mãos, recém tirado do plástico, páginas coladas de um livro intocado, nenhum arranhão, nenhuma dobra, nenhuma marca de dedo suado nas páginas.
Não sei vocês mas eu me envolvo de mais nas histórias. Sou do tipo mais clichê de amante de livros que você vai conhecer.
Dos livros velhos então. Ah, como eu sou apaixonada por livros velhos! Quando falo "livros velhos" não falo necessariamente sobre um livro escrito em 1920. Não que eu não seja apaixonada por um livro de capa dura desbotada com alguns reparos, páginas amareladas do tempo, uma poeirinha por cima e até algumas manchas na contra capa. Ah, quanto amor! - Como já disse, sou um clichê. - Mas não é esse tipo de livro velho que quero que você se apaixone hoje. Se apaixone por eles também, mas não coloquem a culpa em mim.
Talvez seria melhor falar "livros usados" mas eu gosto de chamá-los de velhos. Diferente das interpretações mais comuns de velho, tenho uma visão muito mais de classe e sofisticação do que pejorativo como sempre se ouve. Pense em frases como "não sou velho, sou experiente". Se trocarmos "velho" por "usado" nessa frase, continua um tanto quanto pejorativo, não é mesmo? Por isso continuarei com o bom e velho "velho". Além disso, vejo "experiência" (da frase) como uma coleção de histórias. Mas novamente filtro os livros que quero que percebas. Não diria que um livro que contém diversos contos se classifica nessa "experiência" que quero dizer, então deixe-os de lado, deixe para amá-los daqui a pouco.
Livros velhos. Não acho que apenas os livros mudam as pessoas, acredito que as pessoas mudem os livros também, afinal, cada um lê com toda uma bagagem que pode transformar a mesma história em tantas versões com tantos significados. Por isso acredito que um livro lido por duas pessoas tem muito mais histórias que um livro lido por uma só. Por isso amo emprestar meus livros! Agora, pense comigo. Além da história impressa contada pelo autor, o livro ganha uma história de cada pessoa que o lê, mas não apenas isso! Se você é como eu, tenho certeza que seus livros tem muitas outras histórias. Carrego na bolsa o livro que estou lendo para praticamente todos os lugares que acho que posso ter uma oportunidade de dar uma espiada nele. Consegue imaginar por quantos lugares esse livro já passou? Quantas pessoas já perguntaram sobre ele? Quantos segredos e fofocas ele já ouviu? Com certeza além de uma história, esse livro tem história.
Acho que agora tenho o suficiente para falar do que eu mais gosto em livros. Dedicatórias!
Uma dedicatória indica, primeiramente, que aquele objeto é um presente. Como eu já disse, o melhor presente que se pode dar. Uma dedicatória é mais uma história que você adiciona ao vetor de histórias que esse livro terá. É dar a essas histórias uma primeira história, aquela que explica o porque tantas histórias serão formadas e lançadas ao universo. Uma dedicatória é um punhado de letras que contam o quanto você gosta da pessoa que será presenteada, mesmo que contenha apenas seu nome e uma data. E acredito que para dar um livro você goste bastante dela, pelo menos tenho certeza que ela gostará bastante de você por presenteá-la com tamanha consideração! A menos que ela não goste de livros, mas ainda assim sempre tem a chance dela se apaixonar por algo novo, como livros.
Sabe aquele sentimento de abrir um livro novo? Alguém já o abriu antes, e fez isso especialmente para mostrar o quão importante você é pra ela. O suficiente para escolher um títulos dentre tantos outros para te fazer feliz. O suficiente para escrever em um livro.
Escrever em um livro é um ato extremamente ousado para um amante de livros. Se um amante de livros dá um livro com uma dedicatória para um outro amante de livros, isso é praticamente uma prova de amor!
Ganhar um livro com dedicatória é magico. Já forcei amigos a escreverem dedicatórias em livros que eles me deram "em branco". Sei, tira toda a tal magia, mas lá está o nome deles e algumas palavras que provavelmente me emocionaram. Para todo o sempre! Ou pelo menos enquanto exista o livro, o que eu espero que seja sempre.
Mas a magia não está apenas em ganhar um livro com dedicatória. A magia está intrínseca na dedicatória. Pegar um livro qualquer com uma dedicatória muda completamente a minha visão sobre ele. Pensando agora na melhor loja de presentes para pessoas como eu, pense em um sebo. Eu encontrei esse sebo uma vez escondido em uma rua pouco movimentada. Apenas uma salinha que se você passa muito rápido nem percebe que existe algo ali, mas como eu senti o cheiro dos livros, obviamente não consegui evitar de entrar.
O sebo tem apenas duas prateleiras que vão da porta aos fundos da salinha e uma mesa onde o dono fica sentado lendo seus livros e fazendo reparos em outros. É um senhor apaixonado por livros e pelos seus discos. Me perco em uma sala de nem 10 metros quadrados toda vez que vou lá.
Estou falando sobre esse sebo porque é o melhor lugar para encontrar minhas tão amadas dedicatórias misteriosas. Encontrei diversos livros com dedicatórias datadas de antes de 1960 e sempre tentei imaginar quantas histórias teriam esses livros pra contar. Se a pessoa que ganhou essa dedicatória foi a primeira a ler esse livro, ou a segunda, ou se esse livro já tinha sido um presente para a pessoa que resolveu presentear outra, por onde o livro passou, em que cidade foi comprado a primeira vez. Quantos donos esse livro teve. Por que ele foi parar parar em um sebo e não está na estante de livros da casa de alguém. Tantas histórias carrega um livro e tanto pode-se imaginar por uma simples dedicatória como essa:
Então só tenho alguns pontos a destacar: Se eu fosse um livro, gostaria muito de ser chamado de "velho" e mais ainda de ser dedicado à alguém. Portanto, deem livros de presente! Escrevam neles e deem mais uma história pra eles. A SUA história. Digam o que precisa ser dito na dedicatória de um livro pois, como diz um provérbio Latim, "Verba volant, scripta manent" que significa "As palavras (faladas) voam, as escritas permanecem ".
P.S.: Obrigada a todos que escreverem em livros e deixaram neles um mistério tão lindo quanto esse e obrigada principalmente a quem já me deu um livro com dedicatória. Agora você sabem porque gostei tanto! E a quem não escreveu também. Poxa, são livros!
Hoje conheci um site lindo que me deu mais vontade ainda de escrever sobre isso, o site é o Eu te dedico.
Escrever uma dedicatória em um livro o torna único. Escrever uma dedicatória em um livro é dar a essa história uma história.
Segurar um livro novo nas mãos, recém tirado do plástico, páginas coladas de um livro intocado, nenhum arranhão, nenhuma dobra, nenhuma marca de dedo suado nas páginas.
Mas ah, os livros velhos! Deixarei eles pra depois, falemos das coisas novas primeiro.
Ler a primeira página de uma nova história trás a lembrança de tantas histórias já lidas. Você é tão ingênuo na primeira página de um livro. Você não sabe nada daquela vida. Se é de um autor novo você começa pensando "vamos ver do esse cara está falando". Se você já conhece pensa "esse filho da mãe vai me fazer chorar de novo". De qualquer forma, não deixa de ser um misto de excitação e adrenalina. A decisão de começar um livro novo, ou uma saga nova, te muda desde a escolha do livro e isso é algo que todos os livros tem em comum.Não sei vocês mas eu me envolvo de mais nas histórias. Sou do tipo mais clichê de amante de livros que você vai conhecer.
Dos livros velhos então. Ah, como eu sou apaixonada por livros velhos! Quando falo "livros velhos" não falo necessariamente sobre um livro escrito em 1920. Não que eu não seja apaixonada por um livro de capa dura desbotada com alguns reparos, páginas amareladas do tempo, uma poeirinha por cima e até algumas manchas na contra capa. Ah, quanto amor! - Como já disse, sou um clichê. - Mas não é esse tipo de livro velho que quero que você se apaixone hoje. Se apaixone por eles também, mas não coloquem a culpa em mim.Talvez seria melhor falar "livros usados" mas eu gosto de chamá-los de velhos. Diferente das interpretações mais comuns de velho, tenho uma visão muito mais de classe e sofisticação do que pejorativo como sempre se ouve. Pense em frases como "não sou velho, sou experiente". Se trocarmos "velho" por "usado" nessa frase, continua um tanto quanto pejorativo, não é mesmo? Por isso continuarei com o bom e velho "velho". Além disso, vejo "experiência" (da frase) como uma coleção de histórias. Mas novamente filtro os livros que quero que percebas. Não diria que um livro que contém diversos contos se classifica nessa "experiência" que quero dizer, então deixe-os de lado, deixe para amá-los daqui a pouco.
Livros velhos. Não acho que apenas os livros mudam as pessoas, acredito que as pessoas mudem os livros também, afinal, cada um lê com toda uma bagagem que pode transformar a mesma história em tantas versões com tantos significados. Por isso acredito que um livro lido por duas pessoas tem muito mais histórias que um livro lido por uma só. Por isso amo emprestar meus livros! Agora, pense comigo. Além da história impressa contada pelo autor, o livro ganha uma história de cada pessoa que o lê, mas não apenas isso! Se você é como eu, tenho certeza que seus livros tem muitas outras histórias. Carrego na bolsa o livro que estou lendo para praticamente todos os lugares que acho que posso ter uma oportunidade de dar uma espiada nele. Consegue imaginar por quantos lugares esse livro já passou? Quantas pessoas já perguntaram sobre ele? Quantos segredos e fofocas ele já ouviu? Com certeza além de uma história, esse livro tem história.
Acho que agora tenho o suficiente para falar do que eu mais gosto em livros. Dedicatórias!
Uma dedicatória indica, primeiramente, que aquele objeto é um presente. Como eu já disse, o melhor presente que se pode dar. Uma dedicatória é mais uma história que você adiciona ao vetor de histórias que esse livro terá. É dar a essas histórias uma primeira história, aquela que explica o porque tantas histórias serão formadas e lançadas ao universo. Uma dedicatória é um punhado de letras que contam o quanto você gosta da pessoa que será presenteada, mesmo que contenha apenas seu nome e uma data. E acredito que para dar um livro você goste bastante dela, pelo menos tenho certeza que ela gostará bastante de você por presenteá-la com tamanha consideração! A menos que ela não goste de livros, mas ainda assim sempre tem a chance dela se apaixonar por algo novo, como livros.
Sabe aquele sentimento de abrir um livro novo? Alguém já o abriu antes, e fez isso especialmente para mostrar o quão importante você é pra ela. O suficiente para escolher um títulos dentre tantos outros para te fazer feliz. O suficiente para escrever em um livro.
Escrever em um livro é um ato extremamente ousado para um amante de livros. Se um amante de livros dá um livro com uma dedicatória para um outro amante de livros, isso é praticamente uma prova de amor!
Ganhar um livro com dedicatória é magico. Já forcei amigos a escreverem dedicatórias em livros que eles me deram "em branco". Sei, tira toda a tal magia, mas lá está o nome deles e algumas palavras que provavelmente me emocionaram. Para todo o sempre! Ou pelo menos enquanto exista o livro, o que eu espero que seja sempre.
![]() |
| Prateleiras do sebo |
![]() |
| Discos não estão à venda, assim como algumas edições de livros clássicos |
Estou falando sobre esse sebo porque é o melhor lugar para encontrar minhas tão amadas dedicatórias misteriosas. Encontrei diversos livros com dedicatórias datadas de antes de 1960 e sempre tentei imaginar quantas histórias teriam esses livros pra contar. Se a pessoa que ganhou essa dedicatória foi a primeira a ler esse livro, ou a segunda, ou se esse livro já tinha sido um presente para a pessoa que resolveu presentear outra, por onde o livro passou, em que cidade foi comprado a primeira vez. Quantos donos esse livro teve. Por que ele foi parar parar em um sebo e não está na estante de livros da casa de alguém. Tantas histórias carrega um livro e tanto pode-se imaginar por uma simples dedicatória como essa:
![]() |
| Encontrada em um livro de R$8,00 do sebo citado |
Então só tenho alguns pontos a destacar: Se eu fosse um livro, gostaria muito de ser chamado de "velho" e mais ainda de ser dedicado à alguém. Portanto, deem livros de presente! Escrevam neles e deem mais uma história pra eles. A SUA história. Digam o que precisa ser dito na dedicatória de um livro pois, como diz um provérbio Latim, "Verba volant, scripta manent" que significa "As palavras (faladas) voam, as escritas permanecem ".
P.S.: Obrigada a todos que escreverem em livros e deixaram neles um mistério tão lindo quanto esse e obrigada principalmente a quem já me deu um livro com dedicatória. Agora você sabem porque gostei tanto! E a quem não escreveu também. Poxa, são livros!
Hoje conheci um site lindo que me deu mais vontade ainda de escrever sobre isso, o site é o Eu te dedico.
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segunda-feira, 28 de julho de 2014
Para amar uma ruiva - por Camila Fernandes
Para amar uma ruiva é preciso haver coração de sobejo.
Não que as ruivas não se amem facilmente. Na verdade, é comum que sejam amadas por muitos. Basta às vezes um só olhar para que isso aconteça.
É que, uma vez acesa a chama, nunca será pequena; será sempre fogo denso, impiedoso, inquisidor.
Portanto, para amar uma ruiva é preciso saber queimar. É preciso brincar sem medo com fogo. E é preciso também respeitá-lo – o fogo que nasce no crânio da ruiva feito cabelo, que lhe afogueia as faces. Um fogo que, quando afrontado, em lugar de aquecer, incinera.
Judas tinha cabelos vermelhos, diz-se; como Esaú também os tinha, e antes dele, Caim. Waterhouse pintou Lamia, lenda de sedução, com cabelos vermelhos; as madeixas com que a Vênus de Boticcelli cobre languidamente o sexo não são de outra cor que não a do fogo. Cor que é certamente um sinal de perigo. Sinal claro de divindade.
Para amar uma ruiva é preciso fitá-la intensamente nos olhos – sejam azuis do mar, verdes dos fiordes ou, mais raramente, castanhos como a terra que os consumirá – e provar-lhe a ausência do medo. Conquistá-la no olhar primeiramente, e só depois no toque – pois tu certamente quererás tocar a pele muito, muito clara, de uma claridade quase ofuscante, mesmo sob o sol maldoso dos trópicos. Quererás isso como teus pulmões querem o ar. Eu sei porque já quis.
Mas, antes disso, terás de provocar seu sorriso, e embora sorrisos sejam fáceis na boca-morango da ruiva, não penses que serão todos teus. Alguns serão da tua tolice, da tua presunção, e estes ela te dará sem cerimônia, sem promessa, sem futuro. Serão paina ao vento, macios e inúteis. O sorriso que queres tomar da ruiva é o do fascínio. Pois ela, que fascina, não quer outra coisa que não ser fascinada. Ela é chama, e para incendiar deve ser alimentada com palavras hábeis, coração honesto, virilidade sem disfarces. É preciso atrevimento, mas nunca certeza; ela é amada por muitos, e pode escolher a quem amar.
Então, quando obtiveres esse sorriso, estarás pronto para amar uma ruiva.
Para isso, começa sempre no beijo, mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja, porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa, o ato que lhe faça justiça. Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso, onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível; às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha, que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo – é algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher de cabelos carmesim, cobre ou dourado-fogo. Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre as coxas. Sem pressa, porém; pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno: por toda uma noite, aquecendo a casa, crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.
Para amar uma ruiva é necessário amar-lhe cada sarda, da testa ao ventre, saboreando-as como raspas de canela que temperam a pele-leite.
É preciso consumir-se nos cabelos-labareda.
É preciso afogar-se no sexo, rubro jardim sem espinhos, e santificar seu aspecto perpetuamente virginal, a despeito do pecado, que ela te ensinará a adorar, se já não souberes.
Para amar uma ruiva – e disso sei por já ter amado muitas – é preciso arder com graça.
É preciso amar um pouco o próprio inferno.
Por isso, ruiva, se é que deves mesmo me ferir, sê breve: tenho pressa do paraíso.
Não que as ruivas não se amem facilmente. Na verdade, é comum que sejam amadas por muitos. Basta às vezes um só olhar para que isso aconteça.
É que, uma vez acesa a chama, nunca será pequena; será sempre fogo denso, impiedoso, inquisidor.
Portanto, para amar uma ruiva é preciso saber queimar. É preciso brincar sem medo com fogo. E é preciso também respeitá-lo – o fogo que nasce no crânio da ruiva feito cabelo, que lhe afogueia as faces. Um fogo que, quando afrontado, em lugar de aquecer, incinera.
Judas tinha cabelos vermelhos, diz-se; como Esaú também os tinha, e antes dele, Caim. Waterhouse pintou Lamia, lenda de sedução, com cabelos vermelhos; as madeixas com que a Vênus de Boticcelli cobre languidamente o sexo não são de outra cor que não a do fogo. Cor que é certamente um sinal de perigo. Sinal claro de divindade.
Para amar uma ruiva é preciso fitá-la intensamente nos olhos – sejam azuis do mar, verdes dos fiordes ou, mais raramente, castanhos como a terra que os consumirá – e provar-lhe a ausência do medo. Conquistá-la no olhar primeiramente, e só depois no toque – pois tu certamente quererás tocar a pele muito, muito clara, de uma claridade quase ofuscante, mesmo sob o sol maldoso dos trópicos. Quererás isso como teus pulmões querem o ar. Eu sei porque já quis.
Mas, antes disso, terás de provocar seu sorriso, e embora sorrisos sejam fáceis na boca-morango da ruiva, não penses que serão todos teus. Alguns serão da tua tolice, da tua presunção, e estes ela te dará sem cerimônia, sem promessa, sem futuro. Serão paina ao vento, macios e inúteis. O sorriso que queres tomar da ruiva é o do fascínio. Pois ela, que fascina, não quer outra coisa que não ser fascinada. Ela é chama, e para incendiar deve ser alimentada com palavras hábeis, coração honesto, virilidade sem disfarces. É preciso atrevimento, mas nunca certeza; ela é amada por muitos, e pode escolher a quem amar.
Então, quando obtiveres esse sorriso, estarás pronto para amar uma ruiva.
Para isso, começa sempre no beijo, mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja, porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa, o ato que lhe faça justiça. Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso, onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível; às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha, que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo – é algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher de cabelos carmesim, cobre ou dourado-fogo. Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre as coxas. Sem pressa, porém; pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno: por toda uma noite, aquecendo a casa, crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.
Para amar uma ruiva é necessário amar-lhe cada sarda, da testa ao ventre, saboreando-as como raspas de canela que temperam a pele-leite.
É preciso consumir-se nos cabelos-labareda.
É preciso afogar-se no sexo, rubro jardim sem espinhos, e santificar seu aspecto perpetuamente virginal, a despeito do pecado, que ela te ensinará a adorar, se já não souberes.
Para amar uma ruiva – e disso sei por já ter amado muitas – é preciso arder com graça.
É preciso amar um pouco o próprio inferno.
Por isso, ruiva, se é que deves mesmo me ferir, sê breve: tenho pressa do paraíso.
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