Do outro lado da praça tem uma garotinha brincando no
parque, ela acabou de sair da escola, está com sua mochila rosa nas costas, de
vestidinho vermelho, sua mãe está sentada no banco lendo um livro, fugindo de
sua própria realidade, do fardo de ter se tornado mãe antes dos vinte, enquanto
sua linda criança suja as meias de areia.
Essa garotinha provavelmente diz que vai ser veterinária
quando crescer, todas dizem.
Ela sonha em encontrar um amor pra vida toda, em casar, ter
filhos, ser feliz, viajar pelo mundo, ter uma casa com um grande jardim onde
ela possa cuidar de suas flores e brigar com o cachorro porque ele está pisando
em suas camélias.
Se ela soubesse o que a espera ela não estaria se divertindo
enquanto gira o balanço, ela estaria preocupada, deprimida. Mas mesmo se alguém
fosse lá e falasse: “o que você está fazendo? Por que está sorrindo? Sabe o que
vai acontecer com você? Você vai se decepcionar. Você não vai ser veterinária,
você será uma garota carente que se apaixonará pelo primeiro trouxa que te sorrir.
E ele vai te despedaçar. Você não vai passar no vestibular porque passou mais
tempo atrás dele do que estudando. Você não vai ter uma casa com quintal grande
e flores. Desista! Você não pode com a vida”. Sabe o que ela faria? Mostraria a
língua e correria para mãe dela. E esta diria que é tudo mentira, e sentiria
uma facada na alma, pois foi exatamente o que aconteceu com ela.
Talvez eu seja uma tola, mas talvez essa garota não siga os
passos da mãe. Talvez ela realmente se torne uma veterinária, se case com
alguém legal, quem sabe ela até tenha um jardim grande!
Talvez ela realmente se torne a mulher que ela imagina que
ela será. Talvez, se ela olhar pra traz e der de cara com ela mesma do outro
lado do jardim, e tenha um estranho falando que ela não vai conseguir ser
alguém na vida, ela chegue nesse alguém e fale “toma essa seu babaca, eu me
tornei tudo que eu queria! Você está totalmente errado! Não é porque você não
conseguiu que eu não conseguiria também! ”
Talvez ela não tenha vergonha de se apresentar a ela mesma.
Talvez ela diga para ela mesma “Eu nunca desisti dos nossos sonhos, você está
orgulhosa de mim?” sabendo que a resposta seria um abraço e uma risada boba.
Ou talvez, em um fim de tarde, ela sente do outro lado da
praça vendo aquele dia passar de novo e de novo em sua frente, até que a mãezinha
chame a criança pra ir embora porque está começando a chover. Então, talvez, só
talvez, ela vá, sob a chuva, sente no balanço e gire, só para se lembrar de
como era sonhar e acreditar que a vida era bela.
Mas só talvez.
"Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around."
